texto elaborado por Jack
fotografias de Zé Maria e Sandrinha

 

O projeto “Leitura na praça” na Praia da Pipa não nasceu por acaso. Já desde 2003 Cíntia Junqueira, consciente da total falta de acesso à leitura por parte da maioria da população de Tibau do Sul – RN, vem tentando implantar na região uma biblioteca itinerante que possa visitar periodicamente todos os distritos do município e emprestar gratuitamente livros de todos os gêneros para a população carente. À procura de patrocínio no 2005 o projeto da biblioteca ambulante foi apresentado ao Banco do Nordeste, mas entre muitos não foi escolhido. Após uma momentânea desilusão a boa vontade voltou à tona e Cíntia decidiu agir de qualquer forma. O projeto da biblioteca itinerante ficou para ser elaborado de novo e atualizado, mas Cíntia não pôde parar. No fim de maio de 2005 ela chamou alguns amigos para uma reunião e a partir desta data o projeto “Leitura na praça” vem crescendo, ao mesmo tempo sendo elaborado e executado. O objetivo deste projeto pode ser assim resumido: estimular e divulgar a leitura entre os jovens do município de todos os níveis sociais em idade escolar e pré-escolar. No dia 16 de julho Cíntia e seus parceiros comemoraram um ano de atividades na praça de Pipa com uma grande festa por baixo da chuva...

 

  



Desde a 1ª reunião o núcleo do grupo que está realizando o projeto “Leitura na praça” ficou formado por cinco mulheres: Sandrinha, Marizé, Liana, Mercedes e Cíntia naturalmente ¹. Outros voluntários aparecem de vez em quando, mas o sexto integrante permanente do grupo resultou ser Zé Maria ². O primeiro passo foi aumentar o acervo literário infanto-juvenil da Book Shop Pipa, biblioteca comunitária que Cíntia criou no 1998 e desde então administra. Uma campanha para arrecadar livros efetuada entre amigos e conhecidos permitiu juntar mais de 400 títulos diferentes.
Para os primeiros dois encontros Cíntia fechou uma parceria com o grupo teatral “Pantatéucos” de Goianinha, município contíguo. A primeira representação do grupo foi boa, mas a segunda foi péssima e assim Cíntia propôs às amigas autoproduzir o teatro. Sandrinha escreveu a primeira peça, Marizé construiu o teatro e Cíntia arranjou uns fantoches emprestados.
Os primeiros cinco encontros do “Leitura na praça” aconteceram todos na Praia da pipa, pois as amigas sentiram a necessidade de testar bem o evento em casa antes de propô-lo nos outros distritos.
Desde o 16 de julho de 2006 o projeto “Leitura na praça“ acontece com cadencia quinzenal ao domingo às 16:00 horas. Ao todos foram 27 encontros com as crianças e os jovens da região; 16 na Praia da Pipa, 7 no Distrito de Umari e 4 no Distrito de Piau. Para o próximo setembro está sendo organizado o primeiro encontro no Distrito de Sibaúma, antigo quilombo da região.
Três, depois quatro e nas ultimas semanas cinco grandes tapetes formam as ilhas literárias; os livros ficam sobre baixas estantes feitas com tijolos e tabuas. Em cada tapete um ou dois monitores coordenam as atividades. È nessa hora que as crianças e os jovens mais interessados à leitura podem pegar um livro emprestado. Ao devolver um livro já lido o/a menino/a faz também o resumo da historia para os colegas. Os monitores anotam o titulo do livro e o nome do jovem num caderno, mas acontece que muitos dos livros emprestados nunca voltam à biblioteca; quando isso acontece Cíntia não deixa de lembrar para as suas amigas e colaboradoras que a perda é sempre compensada da esperança que o livro em questão seja muito lido.
Depois aproximadamente uma hora as crianças são chamadas a reunir-se e sentar-se na frente da tenda do teatrinho onde acontecem as outras atividades: leitura com Marizé, atividades lúdico-didáticas com a professora Liana, desenho e finalmente a representação da peça do dia. As sete peças foram representadas mais de uma vez na praça de Pipa e foi interessante ver como as reações do jovem público foram desenvolvendo desfechos diferentes.
Em ocasião da edição natalina do “Leitura na Praça”, que foi representada nos três distritos, foram distribuídos mais de 500 livros de gênero infanto-juvenil: 200 desses livros são doações vindas de Portugal, o restante Cíntia comprou em livrarias e sebos da capital do Estado com o dinheiro arrecadado através duma coleta entre os comerciantes da cidade.
A proposta de Cíntia para os jovens presenteados com um bom livro foi a criação de uma biblioteca comunitária virtual, cada um deles podendo ler, emprestar e pegar emprestado na casa do vizinho gratuitamente, tendo como único dever zelar pela conservação do livro.
O projeto “Leitura na praça” conta somente com o apoio não vinculado de alguns comerciantes locais que arcam o custo dos lanches e outros pequenos gastos.

No Distrito de Umari, na área rural do município, o índice de alfabetização entre os adultos é muito baixo. A maioria dos jovens em idade escolar freqüenta as aulas, onde porém o estimulo à leitura não é uma prioridade. Muitos deles têm ainda dificuldade para escrever e ler em voz alta não obstante freqüentem já a 3ª e 4ª serie. A comunidade inteira acolheu o “Leitura na praça” com grande alegria e praticamente toda a população participou do primeiro encontro ali. Como em Umari não tem uma verdadeira praça os encontros estão acontecendo no largo de terra batida que existe no fim da rua principal da região. Neste distrito também foi constatado a maior participação aos encontros por parte dos jovens em idade pré-escolar e escolar; aproximadamente 300 meninos/as participam do “Leitura na praça” em Umari.
No decorrer dos encontros os jovens mais interessados foram identificados e alguns deles, convidados a freqüentar a biblioteca comunitária, estão vindo para Pipa e acompanhados por uns adultos estão também participando dos encontros que acontecem em Piau e na Pipa.
Aos encontros do “leitura na praça” no Distrito de Piau participam também crianças e estudantes do vizinho Distrito de Bela Vista. Ao todo tomam parte aproximadamente de 100 a 120 meninos/as. Também entre os estudantes de Piau e Bela Vista os monitores constataram muita dificuldade em ler em voz alta.
Os pais que acompanham os filhos aos encontros ficaram entusiastas da iniciativa e perguntam sobre os próximos encontros.
A miscigenação de nacionalidades na Praia da Pipa é muito interessante. A comunidade internacional no antigo povoado de pescadores é muito numerosa: tem gente chegando de todos os cantos do planeta. De conseqüência as novas gerações compõem um conjunto muito heterogêneo.
Os encontros do “leitura na praça” têm gerado resultados diferentes que nos outros distritos porque o excerto de diferentes culturas influiu fortemente na formação das novas gerações. Após a criação de uma boa biblioteca com mais de trezentos títulos diferentes de literatura infanto-juvenil os jovens de Pipa e até dos outros distritos freqüentam a Book Shop Pipa para ler ou pegar emprestado um livro. Diariamente um grupo de aproximadamente 10-15 meninos/as ao sair da escola pública por volta das cinco horas da tarde vai à biblioteca comunitária para ler algo interessante (livros, enciclopédias, revistas educativas) ou interagir em outras atividades lúdico-didáticas (quebra-cabeças, inventar histórias usando os fantoches do teatrinho, desenhando etc.).
Para conter todos os livros que recebeu do Portugal e de outras doações Cíntia dedicou uma inteira estante à literatura infanto-juvenil. Um dos tapetes usado durante os encontros nas praças fica na frente da estante com muitas almofadas para as crianças ficar bem a vontade.


 


¹ - Sandrinha, portuguesa enraizada no Brasil, tem a responsabilidade de escrever as peças que são representadas durante os encontros com a comunidade nos diferentes distritos. Ao total ela escreveu sete peças; as historias contam de livros, natureza e preservação do meio ambiente. No enredo preferido pelas crianças menores tem um gnomo que anda pela mata empurrando um carro-de-mão cheio de livros. Junto com Cíntia Sandrinha é também responsável da logística e organizou no setembro de 2006 e no abril de 2007 duas campanhas de arrecadação de livros de literatura infanto-juvenil no Portugal que deram muitos frutos. Boa parte dos livros que foram distribuídos entre os jovens da região vem da terra lusitana.
- A potiguar Marizé é a contadora de historias preferida pelas crianças menores e as mães. Com seus olhos brilhantes e sua narração cativante atrai a atenção de todos, que ficam calados a escutá-la. Marizé ideou e construiu com canos hidráulicos e tecido colorido a tenda do teatrinho de fantoches. Ela também empresta a voz para alguns deles: o macaco e o sapo.
- A pernambucana Liana é professora e jornalista. Ela é responsável pelas atividades ludo-didáticas que acontecem durante os encontros. Com ela as crianças cantam uma poesia, declamam uma canção popular e interpretam um conto com mais personagens.
- Mercedes, uma argentina que se mudou pro Nordeste brasileiro, é responsável pela organização e distribuição dos lanches que são oferecidos durante os encontros. Ela também criou, costurou e pintou os novos fantoches do teatrinho do grupo.

² - Zé Maria, marido de Sandrinha é ajudante em geral, motorista, fotografo e desde alguns meses foi escolhido como tesoureiro para administrar as eventuais doações em dinheiro, raras, mas sempre bem-vindas.
 

 

 

Conheça o website do Book Shop Pipa: www.pipabookshop.com.br