Das andanças feitas por Mario de Andrade no nordeste brasileiro, capturamos o escritor em um episódio fictício e mágico para o mundo do cinema. Da sua estada na fazenda Bom Jardim em Goianinha, no Rio Grande do Norte, retiramos os elementos e personagens da região para o engrandecimento deste filme e valorização da cultura local. Num retorno insólito através do tempo, dentro de um transe místico, o escritor passeia indiferente entre fragmentos de memória e fatos reais. De sua mente atormentada e obscura vamos apenas registrar sons, movimentos, luzes e sombras, culminando num ato antropofágico, a buscar nas próprias entranhas as respostas para a conhecida antítese do povo brasileiro, ou seja: a riqueza cultural e a pobreza real.

[Eddy Polo Lira Jr. - da introdução ao roteiro do curta-metragem]

 

texto elaborado por Negusa Negasta

A Fazenda Bom Jardim em Goianinha e uma casa de taipa na Praia da Pipa foram cenários para o curta-metragem “Não é muito, mas é Mário”, vídeo praticamente inédito que narra a visita do escritor Mário de Andrade nesta região; a produção independente e sem muitos recursos financeiros foi ideada e planejada no Book Shop Pipa durante uma serie de prolíficos encontros preliminares na primavera do ano 2000. Diretor da película foi o pernambucano Eddy Polo Lira Junior, que tinha já participado de algumas produções cinematográficas independentes no Recife, numa das quais como cenógrafo. O titulo do filme foi sugerido pelo linguista alemão Ulli Raab, professor da Cultura Inglesa em Natal naquela época. O papel de Mário de Andrade foi interpretado por Jesus Esopo, antigo morador de Pipa, proveniente do Pais Basco. Ele contracenou com o escultor potiguar Jordão de Arimateia, que desempenhou o papel de um bruxo, a quem Mário de Andrade procura em suas pesquisas sobre o candomblé. Cameraman do filme foi o uruguaio Ernesto Romann e contra-regra o paraense Eder Jofre Guimarães, outro morador de Praia da Pipa há mais de uma década. As filmagens na Fazenda Bom Jardim em Goianinha contaram com a presença especial do maquiador Amaro Lima. O italiano Giovanni Palmerio filmou com uma handy-cam os bastidores de "Não é muito, mas é Mário" registrando todas as etapas da produção. O filme foi apresentado ao publico uma única vez no telão do Garagem Bar na Praia da Pipa. ECA13 pretende oferecer em breve para seus leitores o download deste filme.

 

 

"...tínhamos um tempo curto para filmar; Ernesto poderia ficar apenas 30 dias a mais no Brasil, e fizemos um cronograma bem enxuto de filmagem... Jordão já havia sido escolhido para o papel do bruxo, e foi à Sibaúma para fazer um laboratório com os ciganos e os negros lá do quilombo; enfim todos estávamos prontos e Jordão não chegava... fomos atrás de mudar o personagem e chamamos a Eva, perfeita para interpretar uma bruxa, e isso tudo já à noite... todos prontos pra rodar, por fim resolvemos não filmar sem o Jordão, que só veio chegar uma semana depois!!! tomou todas durante uma semana invocando Zé Pilintra..."
[das recordações de Eddy Polo]

 

Eddy Polo Lira Jr. - diretor do filme   Jordão de Arimateia interpretou o Bruxo   Jesus Esopo interpretou Mário de Andrade


"quer mais...? no dia da filmagem com o Jordão, ele ficou tão bêbado de pedir cachaça pra Zé Pilintra e na hora de invocar Mário de Andrade, só invocava "José de Andrade está nessa matéria!"... tivemos que gravar por fora depois da cena ele repetindo à força: "Mario de Andrade está nessa matéria!", texto que ele mesmo criou... cara, foi muito engraçado..."
[das recordações de Eddy Polo]

 


"também duas desistências... bem na hora que estávamos todos prontos; Cíntia, que ainda deixou um bilhete dizendo que cinema era uma coisa machista, que só tinha ela de mulher,(porque vetou qualquer outra na época), e o Bruno também no dia da filmagem do Jordão ele sumiu..."


"...e também no dia da filmagem do bruxo que tinha uma cena com Jesus no papel de Mário, ele não quis filmar porque estava sem os óculos do personagem (Bruno ficou de arranjar) e sem sapatos: "sem os sapatos não filmo", repetia Jesus irritadíssimo; nesse dia não gravamos Mário no cenário do bruxo, o que foi uma pena..."

[das recordações de Eddy Polo]

 

o trio de percussionistas que ritmaram as filmagens em Pipa

 

"numa hora entrou uma louca com a polícia e queria parar a filmagem, com uma carteira de polícia federal, atrás de uma cara, entrou em cena armada, foi uma loucura, a loura estava embriagada, fui ter com ela lá fora , na rua, foi muito louco..."


"outra coisa foi que na cena do Mário, finalmente não encontramos sapatos de época que coubessem no Jesus, que se convenceu que um fantasma não usaria sapatos, afinal essa era a condição que o personagem aparecia, fantasma, cara teve muita grea..."

[das recordações de Eddy Polo]