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Nego:
Essa frô de assanoite
amanheceu meu pensamento
feito contentamento enraizou-se
dentro do meu viço
que agora cobiço á bem querer
mede um parmo só de mim pra iaiá
mede a vida inteira dado um nó
mas destá quando ela passar por aculá
carregando meus zoi
vou jogar a bela frô
pra mode ela cheirar
e de mim se alembrar
toda vez que por ali passar
com seu vestido balançado e seu sorriso largo.
(toca um berimbau trazendo uma cantiga)
Dora: Pia que nego tinhoso danado
que moia os berço encarnado
e joga os zoi de fome em cima deu
logo deu, presa pelo rabo da saia
cria da preta veia desalmada
e de fera que se perdeu
a maré secou na minha boca
quando eu disse: vá simbora
que a demora desse amor
tá na bainha do cinturão
mas ouça que meu coração parpiteiro
agora é prisioneiro do acená da tua mão.
Nego: O vento soprou torto que na tardinha vem falar
que o home é feito de carne
e o home pode ser morto
se buliçoso dos dengos da mulata guardada
fia de pai caboclo e da onça braba
o que p'eu num há de ser amedronto
num há de sangue correr
carrego a bela no meu casuar
ainda antes douto amanhecer
a quando o pai dela achar, nós de galope
um fi meu no bucho ela já há de carregar pela benção da sorte.
Pai: A cobra verde me laçou fumaçou nos meus zoi
fiquei foi da cor dela
desatinado pelo chamado de morte
da fia, home e cria
sem carecer quem avalia o fundo do corte
tomei rumo do norte catucando meu burro chucro,
pra trancar aquela malovida
e capar aquele mandiqueiro.
Cego paradeiro que nem o diabo, o fogueiro do juízo apagou
num tenho fia sadia pra nego robar
foi pra home de posse que ela prometi guardar.
Nego: Guardados na liberdade
da beirada do mar e da luz daquela lua
se encontramo num braço aliviado
num abraço antigo de um tempo perdido de nossas almas.
Nego: porque tu me quer minha frô?
Dora: porque eu tenho sede de oçê ...
Nego: então porque me ardes tanto?
Dora: porque tambêm sou a fogueira do teu
sacrifício sou o pago da tua
coragem
Nego: tu é a metade de mim minha frô
Dora: em correnteza
Nego: então sou pescador
Dora: eu sou a lenda
Nego: eu sou o cego ...
(adormecem ao luar)
(o dia amanhece)
Nego: Quando o sol raio no meu dia
minha alegria esfria
sem encontrar nega me esperando despertar
seus passos na areia guia o caminho
da agonia que no meu coração dizia: ela não vai mais vortá
mas antes de dá o goto
tomo o rumo da cabocla
e por ela vou procurar.
Dora: Sei que na estrada da saudade, a dor demora a
passar
mas num quero meu nego no açoite até sangra, até grita, até morrê
quero ele é enfeite dos meus pensar
bicho solto, ariscado pra mode me brechá ...
mas o juizo ainda quis calar
ouço ele gritar
(nego chama por Dora)
Nego: Não vá simbora minha Dora
que sem vosmicê me farta ar
antes do teu responder no meio dos teu zoi lumiar
se escuta outra voz te chamar
pelo lado de lá no triste caminho.
Pai: Passe pra cá
mode apanhar
fia desonrada, vai pra casa amarrada de chicote fine
enquanto ensino a nego ladrão de moça
que força tem a honra de ser home desde minino.
Dora: Nem meu home nem meu pai baixa a cabeça
eu não sou de quem mereça
sou do pai, sou do home, sou do fio
(lutam em duelo com capoeira e corridos "a cobra que morde")
Dora: Ouça meu nego ou de mim se esqueça
não vença o meu pai não
que tem um nó minha garganta
que a mão não arcança desatar
e tem um braseiro no meu coração
que as lágrimas caidas apaga não
o valente se levanta e vem pegar nas minha mão e devagarinho se ancora
Nego: Aurora de todo amanhecer
não quero teu amargo
sei que o fio presa o pai, e o pai presa o avô
vou mimbora descontente, mas os teus gostos é presente de todo o meu
amor.
Pai: Mas por tras vem a punhalada
da faca amolada que o destino lhe guardou
E aos pés da nega amada o forte perde as forças, e o ódio perde a mágoa
quando o laço desatou
num desatino, num desafio, num desamor.
Nego: Daqui sai pai sulvino, se rindo da minha dor,
numa mão ele carrega minha frô.
E quando ela some nas foia verde, aparece eu minino caboclinho do nosso
senhor trazendo água limpa, pra benhar o meu sofrimento
tirar a chaga e o ferimento como na reza
minha mãe já implorou.
(ele se levanta como se tivesse nascido naquele momento respira a vida,
quando se aproxima invisivel uma mulher e lhe diz:)
Oxum: A tua vida te espera em raios em relâmpagos
os pirilampos te guiam e assoviam outros insetos ...
incertos prazeres, seres, armadilhas
ilhas perdidas e iludidas ...
mas vá que Dora chora pelo encanto do amor.
Nego: Penso cá na minha amada e saio na cavalgada
no cavalheiro errante pra busca-la no encanto do avuar
e no céu morar mais ela
é quando encontro adiante transformado na cobra grande,
o pai dela fumaçando
montado num ninho de brasa
mas antes que a cobra dê o bote e me engula,
eu digo não se bula fia da lua
que eu vim cá te ver e não arredo sem você.
Nego: Mas Dora se encanta e espanta o gemer
atravessa por dentro da cobra, como ninguêm pôde fazer
e de volta aos meus braço
eu e ela saimo na carreira ligeira em meio da mata adentro, em meio a
capoeira.
Nego: A cobra ficou xiando
virou fumaça de fugueira
alado de um marvado
que não tem abismo que lhe queira
Nego: eu mais Dora fumo simbora
e dirnooooite no céu viramo estrela
e no meio de tanto brio se perdemo das vistas do mundo.
Fim

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