Ludwig Schwennhagen: "Fenícios no Brasil" (Antiga historia do Brasil - de 1100 aC a 1400 dC) - Livraria Editora Cátedra, RJ - 4ª Edição - 1986

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

os paneis estão precisando de uma reforma...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jacu no Parque Nacional de Sete Cidades - Piauí

 

 

 

 

 

 

 

 

salina no rochedo da Pedra do Sal - Parnaíba - PI

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

barcos das velas coloridas em Tutôia - MA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Revista PLANETA nº 19 do ano 1974 com a reportagem "Quem construiu Sete Cidades" de A. Zago

Olavo de Medeiros Filho: "Os fenícios do professor Chovenágua" - Coleção Mossoroense 2004

 

pela dificuldade de encontrar este livro nas livrarias e nos sebos, considerada a importância da difusão dessa hipótese tão interessante, a ECA13 está disponibilizando para os próprios usuários uma versão digital, predispondo o download da obra em duas partes [arquivos em formado tif multipágina] ------------>considerado que são dois arquivos de tamanho signifícativo é preciso ter paciência...

 PARTE #1 [3.30Mb]
 PARTE #2 [3.33Mb]
 

 

- Farol da Pedra do Sal - na Ilha Grande de Santa Isabel, -------------> Parnaiba [PI]

Texto e fotografias de JACK



"Se visitarmos Sete Cidades com o propósito de provar uma tese, seja
..ela..qual..for, é possível que se encontre material suficiente, tal..é..a..riqueza..do..lugar".   (Antônio Zago - 1974)

 

Tudo começou numa terça feira à tarde; sentado no chão fiquei remexendo em todos os livros que jaziam em uma grande cesta de cipó no Book Shop; condenados à forca por Cíntia, mais de cinquenta livros estavam à espera de ser pendurados nos caibros do telhado. A maioria destes livros era realmente pouco interessante: românticas novelas de amor, principalmente; muitos em idiomas incompreensíveis, como o esloveno e o finlandês. Porém, examinando com paciência todo o conteúdo da cesta, consegui salvar uma meia dúzia: um manual básico de astronomia, um guia prático de massagem, um de regressão a vidas passadas, uma antologia de contos indianos para crianças, um livro com autor impronunciável e titulo intrigante, “Fenícios no Brasil”, e um ensaio em inglês sobre as origens do universo, que ainda não tive coragem de folhear.
- Pode levar pra casa, se quiser, – me disse Cíntia bruscamente, quando mostrei para ela os exemplares que queria salvar da execução capital, e depois ter lançado uma rápida olhada aos livros, concluiu: - considerando que já estavam condenados à forca... –

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Já faz tempo que não acredito em tudo o que leio nos livros ou no que escuto falar. Preciso, quando o assunto é interessante, conferir as bases sobre as quais são construídas determinadas hipóteses, teorias ou simplesmente afirmações. O ser humano contemporâneo, apesar de tamanha tecnologia esbanjada de um lado e do outro, continua sendo um grande ignorante que pouco conhece do próprio passado e praticamente nada quanto às civilizações antediluvianas que precederam as consagradas pelos livros de historia. Considero assim possível ou quanto menos razoável que civilizações anteriores à nossa existiram, apesar de não ter provas irrefutáveis disso. Tudo isto naturalmente me leva a uma conclusão lógica: ignorância é poder! Quer dizer: mantendo escondido à multidão o passado e o legado de precedentes civilizações, os grandes poderosos, laicos ou religiosos que sejam, dominam o gênero humano com mais facilidade. Mas não quero divagar e ir longe demais.
A leitura de “Fenícios no Brasil” de Ludwig Schwennhagen foi iluminante e me deixou muito intrigado. A teoria do pesquisador austríaco é surpreendente: os Fenícios, antigos e práticos navegantes do Mediterrâneo, conhecedores da costa ocidental africana, chegaram pela primeira vez ao Brasil no 1100 a.C. aproximadamente, procurando minerais preciosos, como o salitre, necessário aos Egípcios para a embalsamação dos próprios mortos, além de ouro e prata para o rei David e o filho Salomão, que financiaram algumas destas expedições.
No decorrer dos anos, adentrando-se no continente pelo rio Parnaíba, os Fenícios organizaram uma rede de furnas e minas, que foram exploradas por cerca de oito séculos. Juntamente com os comerciantes e empresários fenícios, chegaram ao Brasil os piagas, sacerdotes de Kar, que pregaram a religião monoteísta que identifica a divindade suprema com Tupan, como resulta no terceiro capitulo do livro, dedicado à língua e a religião dos povos Tupi.
Citando como fontes a “Historia Universal” de Diodoro, antigo historiógrafo grego contemporâneo de Cícero e César, e o 1º Livro dos Reis da Bíblia hebraica, Schwennhagen põe as bases da própria hipótese que vê os Fenícios desde 1100 a.C. navegar com as próprias frotas nas costas brasileiras, estabelecendo estações marítimas, onde abastecer os navios de víveres e água doce, do Pará até a Bahia.
O autor afirma ter encontrado vestígios da presença dos Fenícios praticamente no Brasil inteiro, mas como o então governador do Piauí apadrinhou de alguma forma o trabalho do brilhante estudioso, maior atenção foi dedicada no livro a este estado do Nordeste brasileiro.
Segundo Schwennhagen a cidade de Tutôia, no Maranhão, foi fundada pelos Fenícios naquela época com o nome de Tur-Tróia, homenageando a metrópole fenícia no Mediterrâneo e a famosa cidade recém-destruída pelos gregos, teatro da Ilíada de Homero; o abrandamento da letra “r” típico da língua portuguesa transformou com o passar do tempo o nome Turtróia no atual Tutôia.
O autor foi levado a crer também que os sacerdotes piagas elegeram as Sete Cidades como sede da própria Ordem e ponto de referência para os povos imigrantes: os Cários e as Amazonas entre outros.
A nomenclatura geográfica Insula Septem Civitatum apareceu pela primeira vez em pleno Império Romano. Seu significado original era Ilha dos Sete Povos.
Pela riqueza de informações contidas em cada capitulo é impossível citar todas: aconselho os interessados a ler o livro com muita atenção. Li o tratado histórico já três vezes, mas ainda tenho a sensação de não ter assimilado integralmente o conteúdo. A cada página um novo pormenor aparece para reforçar a tese global.
Naturalmente desde o ano 1928, quando o trabalho de Ludwig Schwennhagen foi publicado pela primeira vez, muitas coisas mudaram. A presença dos Fenícios no continente sul-americano na Antigüidade está provada, contudo não oficialmente; na internet é possível ler muitas páginas sobre este assunto: desde a inscrição na Paraíba até uma gigantesca escultura entalhada na Pedra da Gávea, na capital fluminense.
No 1961 foi fundado no Piauí o Parque Nacional de Sete Cidades; no 1979 foi fundado sempre no mesmo Estado o Parque Nacional da Serra da Capivara, principal sito arqueológico do Brasil, com cerca de 40 mil pinturas rupestres com idades entre 6 mil e 12 mil anos. A pré-história do Brasil está sendo pesquisada com maior vigor nas ultimas décadas.

Loc. Gargalheras - município de Acari - RN


Comecei assim minha própria pesquisa para conferir as informações contidas neste livro tão empolgante. No 2003 em Acari, RN, cujo território no passado remoto deve ter sido riquíssimo em pedras preciosas, como atestam as muitas minas em desuso, procurei saber mais sobre as inscrições rupestres que foram encontradas; pedi para os amigos Angelina e Ambrosio pesquisar mais sobre os sitos arqueológicos nas vizinhanças para poder organizar uma visita esclarecedora: até agora ninguém soube dizer-me se nas inscrições rupestres encontradas na região têm caracteres fenícios.
No Seridó da Paraíba procurei informações sobre Pouso Alto, localidade citada no livro de Schwennhagen, onde foi encontrada uma pedra com inscrições fenícias. Nenhum dos interrogados soube dizer-me nada sobre este lugar. Um deles, o fazendeiro Zé Domingos de S. José do Sabugi, sugeriu que provavelmente o lugar, além de ser uma pequena localidade serrana, pode ter até mudado de nome. Na internet descobri depois que dita pedra com a famigerada inscrição foi levada do lugar original para não se sabe onde. Sic.
No junho do 2005 consegui conhecer rapidamente alguns outros lugares citados no livro em questão.
A primeira etapa foi no Piauí, na Insula Septem Civitatum. O Parque Nacional de Sete Cidades, administrado pelo IBAMA, compreende uma área superior aos seis mil hectares, na faixa de transição entre caatinga e cerrado, com ecossistema predominante típico do cerrado e representantes de flora e fauna adaptados à região.  Os geólogos que examinaram nas ultimas décadas Sete Cidades acham que se trata de um empolgante conjunto de formas pitorescas esculpidas em arenito pelas águas superficiais, pertencente ao período devoniano. De acordo com a tese oficial, a bacia do Parnaíba, uma das três grandes bacias sedimentares existentes no território brasileiro, surgiu no período siluriano, tendo sido ocupada inicialmente por mares e mais tarde por lagos e rios. Nela se acumularam espessuras de sedimentos superiores a 2.000 metros. Os sedimentos marinhos dessa época constituíram a formação Serra Grande, na bacia do Parnaíba, onde está localizada Sete Cidades. Quase no fim de era paleozóica, isto é, no carbonífero, o mar retornou ao interior da grande bacia, onde se depositaram sedimentos marinhos. Após cada um desses ciclos de sedimentação marinha, as bacias de acumulação elevaram-se, emergindo os sedimentos ora transformados em rochas que passaram a sofrer erosão.

Iguana no Parque Nacional de Sete Cidades - Piauí


Percorremos cerca de 20 quilômetros pedalando para conhecer os lugares mais significativos e abertos ao público de Sete Cidades. O parque é uma área de preservação ambiental bastante grande  e o IBAMA tem constantemente problemas com a caça fraudulenta aos animais silvestres que vivem ali. No alto dos 45 metros do mirante, que domina quase todo o parque, a visão é muito sugestiva; banhar-se por baixo da cachoeira ou no olho d' água típico da região é de fundamental importância para suportar o calor considerável.  Patrícia, nossa guia durante a pedalada, explicou que assim como ninguém até hoje conseguiu decifrar aquelas inscrições, nenhum arqueólogo escavou o local e o solo da Insula Septem Civitatum nunca foi analisado cientificamente. Após ter conhecido o lugar é evidente que não se pode falar em ruínas ao se referir a Sete Cidades; não existem restos de pedras espalhados desordenadamente, que poderiam ter sido dispostos em construções outrora. Não existem pedras talhadas nem encaixes artificiais. Se os sacerdotes piagas trazidos pelos fenícios andaram por aí uns oito séculos não deixaram marcas duradouras. Fora uma furna na 5ª Cidade, as pinturas rupestres são as únicas manifestações humanas pré-históricas evidentes.  Pelo resto, de tanta formosura é preciso só agradecer à Natureza. Naturalmente numa região cuja antigüidade se mede por dezenas de milhões de anos nada impede que se tenham sucedido diversas culturas e diversos povos.  
No Centro de Visitantes, um verdadeiro oásis no parque,  estão os guias autorizados; jovens provenientes das circunvizinhanças, de boa vontade, mas sem uma preparação especifica para responder a todas minhas perguntas. O guia mais preparado sobre o parque entre os que conheci, Islando, confirmou-me a presença de pelo menos uma furna bem antiga  na cercania de Piracuruca, perto da qual se encontram algumas pedras marcadas com inscrições rupestres parecidas as que se encontram no parque. Eu sou diletante mas entendo que estas pinturas rupestres não são os caracteres fenícios que pensava encontrar. Os pesquisadores do Parque de Serra da Capivara devem saber dizer-me já muito sobre estas inscrições. Preciso ir até lá logo que poder.
De Piripiri após algumas horas de viagem de ônibus chegamos em Parnaíba, no delta do rio homônimo. Uma rápida corrida de táxi nos levou até Pedra do Sal, na Ilha Grande de Sta. Isabel. No rochedo que dá nome ao lugar, onde a Marinha Militar mantém um cândido farol, encontrei as marcas que caracterizam pequenas salinas cavadas na linha da alta maré para produzir de forma natural sal marinho. São poços não muito profundos cavados onde a água do mar chega só três dias por mês; secando por causa da evaporação ficam com uma boa camada de sal no fundo, que aumenta com o passar do tempo. Absolutamente parecidos com as salinas de época romana cavadas num rochedo da ilha de Ponza, no Mediterrâneo, onde passava minhas férias de verão quando criança. Conversando com pescadores locais tive confirmação da existência de um outro rochedo, em alto mar, assim como da presença de uma pedra esférica ali, definida por Schwennhagen uma típica baliza¹ posta pelos antigos navegantes; mas não souberam informar-me sobre eventuais poços de água doce cavados nas pedras mais altas dos dois rochedos. Subi nas pedras mais altas do rochedo, fora da área restrita do farol, sem encontrar algum sinal interessante.

Rochedo da Pedra do Sal - Ilha Grande de S.ta Isabel - ------------>Parnaiba - PI

De barco pelo delta do rio Parnaíba fomos até Tutôia, já no Maranhão, numa inesquecível viagem através de uma rede de canais e igarapés que formam uma miríade de ilhotas no manguezal com alta folhagem e raízes aéreas.
Em Tutôia ninguém acredita na versão de Schwennhagen: o forte legado autóctone dos índios Tremembés é o único presente e aceito atualmente. Na webpage da cidade as teorias de Schwennhagen são apresentadas quase ironicamente. As escassas ruínas de construção antiga não ajudam a desvendar o problema. Será mais uma Tróia aniquilada?
Fui embora de Tutôia um pouco decepcionado, contudo imaginasse antes de empreender esta viagem que não seria fácil encontrar vestígios que pudessem confirmar as teorias do austríaco.
Todavia não perdi a vontade de saber mais e espero voltar lá em breve com maiores informações sobre os lugares onde pesquisar.
No contraforte cearense da Serra de Ibiapaba, entre Viçosa e Ubajara encontrei noticias e vestígios de antigas minas e furnas, apesar de não ter conseguido visitar as Grutas de Ubajara, no homônimo parque nacional; o bonde teleférico estava em manutenção há meses e na época da chuva a trilha que leva até as grutas passando perto de uma bonita cachoeira é impraticável. 
Após esperar por alguns dias o sol aparecer para permitir-nos enfrentar a trilha, desisti depois de um temporal que adiou qualquer pretensão de visitar as grutas até a primavera.
 

canoa no delta do rio Parnaíba - Divisa PI-MA
 

Minhas ferias esgotaram-se e tive que voltar ao trabalho. O dia depois a nossa chegada em Pipa, recebi a visita de Eddy Polo, que trouxe para eu ler uma velha edição da revista Planeta com uma reportagem sobre Sete Cidades de Antônio Zago. Li com a malicia de quem já conhece o lugar e o assunto, pelo menos um pouco, mas soube colher algumas informações inéditas; a sagaz afirmação que abre este meu relato é extraída do texto dessa reportagem.
Procurando um retrato de Ludwig Schwennhagen na internet descobri só alguns dias atrás que o acadêmico potiguar Olavo de Medeiros Filho², falecido no julho passado, publicou no agosto do 2004 "Os Fenícios do professor Chovenágua" na Coleção Mossoroense da Fundação Guimarães Duque. Não será muito difícil  encontrar uma copia deste livro no Sebo Vermelho de Abimael Silva em Natal. Em breve estarei com alguma novidade para relatar. Um homem erudito como Olavo de Medeiros Filho deve ter muito para contar-nos sobre tudo isso. 

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 Leia mais sobre L.Schwennhagen e o livro "Fenícios no Brasil"